Amor Fati

“Aceite as coisas que o destino lhe traz, e ame as pessoas que o destino te aproxima, mas faça isso de todo o seu coração.”

– Marco Aurélio

Prólogo: Abby

Eu a beijo enquanto a empurro em direção ao quarto.

O álcool enevoa a minha mente e me impede de sentir muita coisa. Na verdade, me impede de sentir qualquer coisa. A conversa no bar foi boa, ela é legal, inteligente, sexy, cheirosa e tudo mais. Apesar disso, eu sinto… nada. Eu não sinto nada.

Sem nunca parar de beijá-la, abro a porta do quarto com uma mão enquanto com a outra desabotoo a sua calça jeans. Ou pelo menos tento. O ângulo está um pouco estranho, mas dou um jeito. Atravessamos a porta em direção a cama e interrompemos o beijo por um momento quando ela leva as mãos à barra da minha blusa para tirá-la. Mas no segundo que nos afastamos, vejo a minha cama ainda desfeita e com a forma das duas pessoas que dormiram ali por último.

As memórias da noite passada e dessa manhã voltam a me atormentar e, de repente, eu não estou mais sentindo nada. Estou sentindo muito.

Estou sentindo tudo.

Paro no meio do caminho, impedindo-a de tirar a minha blusa. Encaro o lençol bagunçado e lembro da imagem delas dormindo tão pacificamente nessa cama.

— Você está bem? — A mulher me pergunta.

— Eu… eu não posso — digo.

— Como é?

— Eu não posso. A gente não pode.

— Você se importaria de, não sei, explicar melhor?

— Cara, a gente não pode continuar, tá bem? — falo com um pouco mais de firmeza.

Ela franze a testa antes de responder:

— Tá — ela diz, carregando o “a” quase como se fosse uma pergunta. — Por quê?

Ela parece confusa.

Bem, ela que entre na fila, porque eu também estou.

— Eu não posso — digo, pela quarta vez, como um disco furado. — Não nessa cama. Ela é, tipo, sagrada.

Parece infantil, eu sei, mas é. Desde que elas estiveram aqui é sagrada.

— Tudo bem, sem sexo casual na cama sagrada, entendi — ela diz, erguendo as mãos em rendição.

Sou obrigada a admitir que ela até que está sendo bem compreensiva.

— Isso — falo, me afastando e arrumando minha blusa, que, por ser bem justa, ainda estava meio levantada.

— Então alguém especial dormiu aqui? — ela pergunta.

— Sim.

— E você não quer transar na mesma cama em que transou com alguém que você ama. Entendi.

— Não é isso. Quer dizer, sim, alguém dormiu aqui, mas não é isso. Foi a minha filha, ela tem nove anos — explico, sem saber por que estou falando isso a uma estranha. Ainda assim, acrescento. — E a mãe dela também.

— A sua ex — ela fala, balançando a cabeça como se de repente compreendesse tudo. Só que ela está errada.

— Não — explico. — Na verdade, não. Eu a conheço há uns três meses mais ou menos.

— Então acho que não tô acompanhando.

— É uma longa história — digo enquanto me afasto do quarto, de volta para a sala de estar. Sinto ela me seguir até a porta.

— Eu tenho tempo — ela propõe com indiferença, inclinando-se contra o batente da porta e cruzando os braços.

Seus cabelos escuros estão levemente bagunçados e a sua calça ainda está com o botão aberto. Apesar disso, por algum motivo esquisitíssimo, sinto que posso confiar nela. Ainda assim, não digo nada, então ela continua:

— Olha, tinha umas quatro mulheres dando em cima de mim naquele bar e eu escolhi você. Eu tenho certeza de que estaria transando agora mesmo se tivesse escolhido qualquer uma delas — ela diz, mas não parece zangada. Pelo contrário, parece estar se divertindo. — E eu não posso voltar pro bar sozinha, é meio vergonhoso, todo mundo vai achar que eu levei um fora. Então pelo menos me dê algum entretenimento — ela conclui, fechando o botão da calça e caminhando até a poltrona ao lado do sofá.

— Credo, como você é persistente, cara. Você é terapeuta ou algo assim?

— Na verdade, sou — ela responde com um sorriso de lado. — Mas isso não vem ao caso, faz de conta que eu sou uma amiga sua.

Estudo ela por mais um segundo.

É estranho eu confiar em uma estranha assim, não é? Mas a verdade é que eu meio que preciso falar com alguém, e ela parece tão disposta a ouvir que seria desperdício não aproveitar dois ouvidos tão disponíveis.

— Tá bem — respondo por fim. — Você quer uma bebida?

— Um uísque, se você tiver.

Aceno com a cabeça e me levanto para pegar uma garrafa de uísque no armário. Sirvo dois copos e deixo a garrafa na mesa de centro. Algo me diz que uma dose não será suficiente para a história toda.

Me sento na poltrona em frente a ela, que cruza uma perna sobre a outra. Agora que sei, ela tem mesmo muita cara de terapeuta.

Bebo um gole generoso de uísque e respiro fundo:

— Tudo começou há uns três meses quando alguém bateu na minha porta…

1. Abby

Meu dia tinha sido uma bela de uma bosta.

Havia perdido a hora, esquecido meu guarda-chuva e chegado atrasada e encharcada na academia.

Eu trabalhava em uma academia de luta no centro. Na teoria, o meu trabalho era de instrutora para lutadores iniciantes de boxe e kickboxing. Na prática, Shawn, meu chefe, sempre me colocava de sparring para boxeadoras profissionais.

No boxe, sparring é a pessoa que treina com o lutador, simulando uma luta de verdade para praticar os ataques e as defesas. Embora eu usasse equipamento de proteção como capacete e luvas ou, dependendo do treino, manopla, às vezes, como naquele famigerado dia, uma das lutadoras acordava de mau humor e decidia descontar a raiva no treino.

— Ei, vai com calma aí, Touro Indomável — falei para Kate depois de levar dois ganchos de esquerda na cara.

Estávamos no ringue, treinando para a sua próxima luta. Eu podia notar pelo seu olhar que estava concentrada. Concentrada até demais, eu diria, porque parecia esquecer o tempo todo que eu não era uma adversária real.

Ela não parava de se movimentar nem por um segundo, balançando o corpo para um lado e para o outro, enquanto mantinha as luvas em posição de proteção próximas ao rosto e os olhos fixos aos meus, como um predador.

— A minha luta é em uma semana, Abby, e eu pretendo ganhar — ela respondeu com certa ironia e, bom, mau humor.

— E eu pretendo manter todas as minhas funções cerebrais intactas até a terceira idade.

Ela, de repente, parou a movimentação, soltou uma bufada, abaixou os braços e se virou para o meu chefe:

— Ei, Shawn, tem algum sparring de verdade nessa espelunca?

— Qual é, Kate, a Abby é a nossa melhor garota! — ele gritou de volta.

Shawn estava treinando com outro lutador no saco de areia. Ele segurava o saco enquanto Antônio treinava os socos. Aquela, por exemplo, era uma função decente e menos humilhante.

— Eu nem sparring sou — argumentei, já me irritando.

Eu era karateca e trabalhava com boxe apenas por necessidade. Mas quando aceitei aquele emprego, não era para ficar levando soco na cabeça o dia inteiro, era para ser instrutora de adolescentes e mulheres querendo praticar kickboxing por hobby ou para manter a bunda tonificada.

— Claro que é — Shawn gritou de volta. — E é a melhor que nós temos.

­— Santo Deus — exclamei, então me virei para Kate. — Tá, vamos acabar logo com essa tortura.

Ela não respondeu nada, mas voltou a posição de luta, movimentando os pés e empunhando as luvas.

Já que iria apanhar, era melhor eu começar a bater também. A minha movimentação de pernas era relativamente boa para os padrões do boxe, o que fazia de mim uma lutadora mais rápida que a maioria, então tentei me aproveitar disso.

Ela desferiu um jab, mas consegui desviar e encaixei um gancho de esquerda no seu maxilar. Ela pareceu ser pega de surpresa e cambaleou para trás meio tonta. Fiquei orgulhosa de mim mesma. Mas por apenas meio segundo, até notar o olhar homicida que ela me lançava.

— Merda!

Depois disso, Kate não teve mais piedade de mim. Encerrei meu turno com uma dor de cabeça dos diabos e muito possivelmente algum dano cerebral.

Caminhei até o vestiário. Usei os dentes para soltar a luva da mão esquerda, então a mão livre para liberar a outra luva e o protetor de cabeça. Sentia as minhas têmporas latejando e meu maxilar inchado. Além disso, a minha costela esquerda estava dolorida e um hematoma do tamanho de um punho se formava.

— Bom treino, Sinclair — Kate disse para mim, parecendo significativamente mais bem-humorada.

Soltei apenas uma interjeição parecida com um gemido enquanto massageava a minha nuca. Ela soltou uma risada e caminhou para o chuveiro, e eu aproveitei para me mandar dali.

— Te vejo segunda, Sinclair — Shawn gritou do meio da academia enquanto eu caminhava até a saída.

— Isso se eu voltar!

— Você fala isso toda sexta-feira, e sempre volta.

— Um dia eu não volto.

Não me entenda mal, eu gostava de trabalhar em uma academia e gostava muito do Shawn, apesar do seu jeito meio rude. Além disso, lutar era basicamente a única coisa que sabia fazer. Mas, no fundo, eu gostava de pensar que um dia poderia ter um emprego menos, não sei, bruto. Algo que eu pudesse envelhecer fazendo. Algo que não requeresse bolsas de gelo, analgésicos e pomadas a base de cânfora e arnica.

Eu morava perto da academia, no sentido norte, e ia a pé quase todos os dias. Pelo menos não estava mais chovendo e não me molhei para voltar para casa.

A academia ficava bem no centro, quase de frente para a Citadel, o forte e principal ponto turístico da cidade. Ele ficava no ponto mais alto então todos os caminhos que levavam até o forte eram ladeiras. Eu morava no início do lado norte e, apesar de ser muito perto, tinha que subir a ladeira todos os dias. Mas era um bom exercício, eu me sentia como o Rocky subindo a escadaria do Museu de Arte da Filadélfia.

Contornei a Citadel deixando a agitação do centro para trás enquanto o vento frio de março atravessava minha jaqueta. O ar gelado até que era bem-vindo, podia senti-lo agindo como um analgésico no meu maxilar dolorido.

Aquela era minha parte preferida do trajeto. Gostava de caminhar ao lado dos gramados da Citadel, apesar de sempre me perguntar por que nunca subi lá para conhecer a fortificação. Mas acho que esse é um daqueles lugares que só os turistas conhecem. Toda cidade tem um lugar assim.

Eu gostava especialmente do ponto em que a Sackville st. e a Brunswick st. se encontravam. Tinha uma árvore solitária no meio do gramado e o prédio histórico de tijolos vermelhos contrastava com um moderno espelhado bem ao lado dele.

O relógio central da cidade à minha esquerda marcava que já era quase cinco horas, mas o céu ainda estava azul, mostrando que o inverno estava mesmo acabando e os dias começavam a ficar mais longos. O pequeno prédio com o relógio era apenas um ponto branco no meio do verde do sítio histórico e do azul intenso do céu.

Mais cinco minutos de caminhada e eu estava na Gottingen st., a rua em que eu morava.

A porta de entrada do meu prédio era velha e não trancava mais há uns… vinte anos, eu diria. Mas eu não me preocupava; não era como se alguém fosse querer roubar algum dos apartamentos dali.

A rua não era mais perigosa e marginalizada como costumava ser há alguns anos, mas ainda era o aluguel mais barato perto do centro. Hoje em dia, era uma rua bem agradável, cheia de bares barulhentos e cafés descolados.

Eu, no entanto, não me importava com as pessoas bêbadas passando pela minha janela falando alto nas madrugadas de sexta e sábado, até porque na maior parte das vezes, eu também era uma delas.

— Abby — Escutei a voz da sra. Saad, a minha locadora, gritando o meu nome na hora em que pisei na escada. Fechei os olhos e soltei um suspiro sabendo exatamente o que me esperava. — O aluguel.

Essa mulher se materializava do nada, eu juro. Parecia até que passava o dia espiando pelo olho mágico, só esperando eu aparecer.

— Eu vou pagar, sra. Saad.

— Três meses, Abby! Você está com três meses atrasados. Desse jeito, eu vou ter que entrar com uma ordem de despejo.

— Não! Espera, eu tenho alguma coisa aqui — falei, metendo a mão no bolso. — Aqui, duzentas pratas.

— Isso só cobre meio aluguel.

— Aí eu fico devendo só dois meses e meio — argumentei, lançando o meu melhor sorriso.

A sra. Saad revirou os olhos, mas pegou as notas amassadas mesmo assim. Depois se virou e entrou no seu apartamento sem falar mais nada.

Eu falei que meu dia tinha sido uma bela bosta.

E como se não bastasse, ainda tive que jantar um resto de comida tailandesa, que se eu parasse para calcular quanto tempo estava na geladeira, provavelmente concluiria que não era seguro e que tinha grandes chances de eu parar no hospital com uma intoxicação alimentar. E se você quer saber, teria sido um final bem mais apropriado para aquele dia.

Mas o que eu podia fazer? Só receberia de novo na semana seguinte e todo dinheiro que tinha, tive que dar para a sra. Saad.

Enfim, eu estava comendo meu Pad Thai possivelmente tóxico e vendo um daqueles reality shows de gente pelada na selva quando escutei uma batida na porta.

Na verdade, três.

Fiquei na dúvida se tinha mesmo escutado porque não era como se eu recebesse muitas visitas.

Mais três batidas bem ritmadas.

— Mas que inferno.

Soltei um suspiro, larguei a minha comida e me levantei.

— Eu não tenho mais dinheiro, sra. Saad! — disse, abrindo a porta.

Mas para a minha surpresa não era a senhora Saad.

Não era ninguém.

— Ahem.

Escutei uma limpada de garganta suave e abaixei a cabeça, me deparando com um par de olhos cor de mel posicionados acima de bochechas rosadas em uma criança que não devia medir mais do que um e trinta.

— Tá perdida, pirralha? — perguntei.

— Você é Abby Sinclair?

— Depende de quem pergunta.

— Hum, eu? — ela respondeu, meio confusa.

— Sim, eu quero saber quem é você, nanica.

— Ah! Eu sou Lily Ortega — ela disse de maneira articulada. — Eu sou a sua filha.

Espera, o quê?

— Isso é uma piada? Porque não é muito engraçada.

— Não… quer dizer, você é Abby Sinclair, né?

— Você não pode ser minha filha!

— Você não teve uma filha há nove anos que entregou para adoção?

— Talvez.

— Sou eu! — ela disse com pompa, como se fosse um mágico tirando um coelho da cartola.

Por um segundo, tive a sensação de que minha alma estava deixando o meu corpo.

— O que diabos você está fazendo aqui? — perguntei. — Ninguém te quis, não?

Sim, sim, eu sei que isso não é jeito de falar com uma criança. Por que você acha que eu a dei para adoção?

Porque não sei lidar com criança.

E porque seria uma péssima mãe.

E por que tinha 15 anos e não tinha onde cair morta!

Mas, mesmo conhecendo na pele a realidade de orfanatos e lares adotivos, eu tinha esperança de que ela seria adotada logo. Ela era tão bonitinha quando nasceu, pensei que algum casal de ricaços inférteis iria querer adotá-la.

Ela me encarou por alguns segundos. Não fazia ideia do que ela poderia querer comigo. Parecia bem alimentada e bem-vestida, o que já era mais do que se podia dizer de mim naquele dia.

— Eu posso entrar? — ela perguntou.

— Não.

— Eu não vou sair daqui até eu conseguir falar com você — ela disse. — Você decide se quer que os seus vizinhos também escutem ou não.

— Você é sempre assim chantagista?

Ela deu de ombros e cruzou os braços, esperando a minha resposta.

Gene dos infernos.

— Entra logo!

Abri espaço para ela passar e fechei a porta com certa força.

— Você deveria limpar a sua casa — ela disse, reparando na bagunça e sujeira de semanas.

— E você deveria cuidar da sua vida.

Ela ponderou um pouco antes de se sentar na beirada da poltrona.

Não havia chance nenhuma de aquela criança fresca não ter sido adotada por um ricaço. Ela vestia um sobretudo da Burberry que devia cobrir sozinho os meus três meses de aluguel atrasado, além de todo o resto, do gorro ao sapato, parecer custar uma nota. Ainda assim, ali estava ela, no meio da minha sala, me encarando com aqueles olhos tão parecidos com os que eu via no espelho todos os dias.

— Então… — incentivei antes de tomar um gole da minha Molson Canadian.

— Eu quero morar com você!

Senti cerveja quente saindo pelo nariz e boca com o susto que levei.

— Como é que é? — perguntei, limpando o meu queixo.

— Eu não quero mais morar com a minha mãe… minha mãe adotiva, quero dizer.

— Você é biruta, nanica? Você não consegue nem se sentar na minha poltrona sem ficar com medo de pegar tétano ou sei lá o quê.

— Tenho certeza de que uma faxineira pode resolver essa situação — ela disse de maneira meio soberba.

Soltei uma gargalhada como havia tempos não soltava.

 — Tô começando a achar que a maluca é mesmo a sua mãe que te educou assim.

— Maluca eu não sei, mas controladora, com certeza.

— Olha, criança — eu disse, tentando tomar as rédeas da situação. — Não me importa que ela seja o capeta encarnado, ela é a sua mãe. Eu não sou nada sua!

— Mas ela nunca me deixa fazer nada…

— Espera! — exclamei, me dando conta pela primeira vez de um detalhe muito, muito importante. — Sua mãe sabe que você está aqui?

— É claro que não — ela respondeu como se fosse óbvio. — Eu fugi e peguei um ônibus interurbano.

— Interurbano? Onde você mora?

— Baddeck.

— Isso é uns trezentos quilômetros daqui!

— Eu sei — ela disse orgulhosa. — Eu fiz tudo sozinha, até usei a impressora da mamãe para fazer os documentos para eles me deixarem andar sozinha. A sra. Scott que me disse que eu iria precisar.

— Quem é essa?

— Minha professora.

— A sua professora te aconselhou a fugir? Que diabo de profissional é essa?

— Não… eu não disse para ela que iria fugir. Só perguntei como uma criança faz para andar sozinha de ônibus.

— E ela nem suspeitou de nada?

— Acho que não.

— Deus, que mulher mais pamonha!

— A mamãe diz a mesma coisa, mas eu gosto dela.

— É claro que gosta, você consegue manipular ela — falei.

— Isso não é verdade.

— Você está aqui, não está?

— Tô.

Ergui os braços provando o meu argumento, mas ela não falou mais nada, apenas continuou me encarando, como se esperasse algo de mim.

— Vem — eu disse, me levantando. — Eu vou te levar de volta para casa.

Eu iria levar aquela menina para a casa e fingir que tudo aquilo havia sido uma febre decorrente de uma intoxicação alimentar severa por conta daquele Pad Thai…

Pensando bem, talvez fosse mesmo.

Era claro que uma criança de nove anos não iria aparecer na minha casa reclamando minha maternidade.

— Eu não quero ir! — Lily disse, trazendo minha atenção de volta a ela.

Se era uma alucinação, era das boas. Porque ela parecia muito, muito real.

De qualquer forma, eu pretendia manter o meu plano. Eu não tinha tempo nem condições, econômicas ou emocionais, de lidar com aquilo. Por mim, quanto menos eu soubesse de sua vida, melhor.

— Eu não perguntei o que você quer — respondi, decidida a acabar com aquilo de uma vez.

— Ela vai me deixar de castigo — Lily disse com olhos caídos, do tipo mais manipulador possível.

De tudo, os seus olhos eram os que mais denotavam nosso parentesco. Eram realmente muito parecidos com os meus. E era exatamente por isso que aquele olhar não colava comigo. Eu havia inventado aquele olhar. Ela teria que se esforçar muito mais que isso para me comover.

— E ela vai estar com a razão, se você quer saber — falei.

— Eu não vou dizer onde eu moro. — Lily cruzou os braços e fincou bem os pés no chão.

Credo, como podia? Ela nunca havia convivido comigo, ainda assim, tinha a mesma personalidade péssima que eu na infância.

— Não deve ter muitos Ortegas em Baddeck, nanica. E eu posso simplesmente ligar para a polícia de lá e falar que Lily Ortega está comigo. Quanto tempo você acha que a sua mãe demora para chegar até aqui?

— Cruzes, você é pior que ela — Lily disse, frustrada, deixando os braços caírem na lateral do corpo.

— Obrigada.

— Você não entende! — ela exclamou. — Ela nunca me deixa fazer nada legal, sempre diz que é perigoso ou inútil.

— O que você quer tanto fazer afinal que ela não deixa?

— Ela nunca me deixa dormir na casa das minhas amigas, não me deixa ser escoteira, não me deixa ir nas excursões da escola…

— Tá, ela é um pouco controladora, e daí? Pelo menos ela se importa.

A mulher parecia uma bruxa, mas não iria falar isso em voz alta e dar razão a Lily.

— Não se importa não. Ela só trabalha.

— Olha, nanica…

— Eu não sou nanica!

Soltei um suspiro.

— Olha, Lily, eu cresci em orfanatos e casas de família provisórias, posso te garantir que tem coisa muito pior do que uma mãe superprotetora.

— Você morou em orfanato?

— Morei, até os dezoito anos, mas isso não vem ao caso agora. Eu vou pelo menos ligar para a sua mãe e falar para ela que você está comigo. Se ela é como você diz, já deve ter chamado a polícia e eu não quero ser presa de novo.

— De novo?

— Quê?

— Você disse “não quero ser presa de novo”.

— Eu não disse “de novo”.

— Disse sim.

— Mas não era o que eu queria dizer. Você não tem celular?

— Tenho, mas deixei em casa — ela falou. — Achei que ela poderia rastrear a minha localização se eu trouxesse comigo.

Esperta.

Me estiquei para pegar o meu celular e o coloquei na mão da menina.

— Digita aí o número da sua casa — instruí.

Ela bufou, mas ainda assim obedeceu.

Assim que clicou no ícone de chamada, passou o telefone tão rápido para mim que parecia que estava brincando de batata quente.

— Qual o nome da sua mãe? — perguntei, pegando o aparelho.

— Eva.

O telefone tocou apenas uma vez antes de uma voz que soava levemente desesperada atender.

— Lily?! — Eva perguntou. — Lily é você?

— Não. Meu nome é Abby, mas eu estou com a Lily…

— Quem é você? Por que está com a minha filha? Quanto você quer? Eu já chamei a polícia! Você vai se arrepender do dia que nasc…

— Epa! Pera lá, minha senhora! Sua filha que veio atrás de mim. Eu só tô tentando devolver ela. Como eu disse, meu nome é Abby Sinclair…

— Cadê a minha filha?! — Eva me interrompeu em um quase latido.

Soltei um suspiro e acho que revirei os olhos, porque vi Lily erguendo as sobrancelhas em um gesto que entendi como um “bem feito!” ou talvez fosse um “eu avisei”.

— Quer saber, nanica, fala com a sua mãe — disse, passando o telefone para ela.

— Eu não quero falar com ela — Lily resmungou. — E eu não sou nanica!

— E eu não quero você na minha casa! — revidei. — Pega isso logo. Diz pra ela que você tá bem e viva, pelo menos.

Lily soltou um suspiro, mas pegou o telefone.

— Oi — ela disse em um tom bem menos autoritário do que estava usando comigo.

Eu podia ouvir a mulher falando sem parar do outro lado da linha ao mesmo tempo que via o corpo da Lily encolhendo. Mas eu não podia culpar a tal da Eva por estar assim. Nem sabia dizer o que eu faria no lugar dela se algum desconhecido estivesse com a minha filha, mas provavelmente envolveria bem menos falação e mais violência.

Era estranho pensar que nesse contexto hipotético, a minha filha seria Lily mesmo. Em um universo paralelo em que não a entreguei para adoção.

Especialmente porque nunca mais cheguei nem perto de ter outro filho. Primeiro porque havia aprendido na marra a importância da prevenção e, segundo e mais importante, porque para engravidar eu precisaria fazer algo que eu não praticava mais havia alguns anos.

— … em Halifax… — Lily disse no telefone. — Eu peguei um ônibus.

Podia ouvir Eva fazendo uma sequência de perguntas.

— Eu vim atrás da minha mãe!

— Eu não sou a sua mãe! — respondi rapidamente.

Essa tal de Eva parecia rica e poderosa. Eu não queria que ela mandasse um assassino de aluguel atrás de mim porque Lily fez parecer que eu tinha algum interesse em roubar o seu posto.

— Me dá aqui esse telefone! — falei e peguei o aparelho da sua mão. — Alô?

— Você é a mãe biológica da Lily?

Eu podia ouvir a voz de Eva falhando. Como se eu fosse um bicho papão que a qualquer momento pudesse atacá-la.

— É o que ela me disse. Mas acho que o termo aqui é genitora — acrescentei, tentando amenizar a situação. — Olha, Eva… posso te chamar de Eva? — Como ela não respondeu, tomei seu silêncio como um sim. — Se você me passar o seu endereço, eu a levo hoje mesmo para casa. Ou amanhã de manhã, se você preferir.

— Eu sabia que ela estava brava com essa história do karatê, mas não achei que…

— Karatê? — perguntei com os olhos fixos em Lily.

Deveria ter desconfiado de que tinha alguma coisa a mais do que um simples “ela não me deixa fazer nada”.

— Ela começou com essa história de fazer karatê e eu disse que não, mas ontem nós brigamos e ela me acusou de nunca estar ao seu lado… — Eva parou bruscamente, como se percebesse que falava com uma estranha. Ela limpou a garganta antes de voltar ao seu tom normal. — Isso não vem ao caso.

Agora que ela falava mais pausadamente, pude notar o timbre da sua voz. Ela tinha uma voz aveludada, mas vez ou outra parecia rouca.

Pela maneira que falava, eu apostaria que era uma mulher rica que estava acostumada a ter as coisas à sua maneira. Mesmo assim, senti certa pena.

— Bom, se você me passar o seu endereço, eu prometo entregar ela sã e salva — prometi.

— Como eu sei que posso confiar em você? — Eva perguntou.

— Eu quero ela aqui tanto quanto você, acredite — falei. — E já tá bem tarde, até você chegar aqui e voltar já vai ser de madrugada. É bem mais fácil eu levar ela aí. Não me importo de voltar no meio da noite.

Cheguei a pensar que a ligação pudesse ter caído, de tanto que ela demorou para me responder.

— Está bem — disse por fim.

Peguei um bloco de notas e uma caneta e anotei o endereço que ela me passou.

— E, por favor — ela acrescentou —, venham com cuidado. Já está tarde.

— Pode confiar.